quinta-feira, 24 de maio de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
Cioran
O cinismo autofágico de Cioran só atrai desgraçados. Cônscios das potencialidades de suas máximas sedutoras, a nossa luta diária é contra o prazer indecoroso de as ler até a fadiga.
Objeção
Ruminamos sobre os sopros de vida iniciais deste século e, da desolação circunstanciada sob a evidência do sentido escasso, conseguimos aclarar uma objeção a todo entojo acobertado de vaidades: que Saara mais deserto e estéril que uma vida contemporânea?
De um sonho
Pensar é a torção do tempo em relação a nós mesmos: quando somos colocados em atrito com os seus fluxos carregados, penetrando o devir como alguém atravessa um ciclone cujo rodopiar expressa uma enorme brutalidade, somos também obrigados a encontrar meios de sobressairmos à animosidade caótica de suas fortes correntezas, a fim de estarmos vivos enquanto não somos também carregados.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Tentação
O ócio trouxe à jovialidade verdejante do nosso Sim as sombras do pessimismo. Se a existência, então cacófato tolo e insuportável, depositava em nossos músculos a energia suficiente para suportá-la sobre as costas e vê-la depois cair, cansamo-nos do monótono exercício doloroso legado por um idiota Deus sádico ao antevermos que o gene do ceticismo, se ingênito a quem o carrega, não pode ser exterminado.
Do estilo
A longevidade extenua, dinamita os espaços onde flutuam libertinas as singularidades, troca a concisão de um estilo rigoroso quanto à seleção de suas palavras pelo improviso malabarista e carente de beleza e, em nome do prosaísmo maratonista exigido pela dissertação desgastante, sacrifica a idiossincrasia certeira, as três ou cinco frases cheias de fidalguia, pelos ruídos nauseantes e avaros dos extensos parágrafos tautológicos.
domingo, 13 de maio de 2012
Angústia
Ambicionando o descanso, deito-me; tenho o corpo mole de viver os dias; ao lado, depois da parede, meu cachorro late, e, como sempre, é para ninguém. Escuto o chiado inquebrantável do rádio do meu vizinho; baladas carnavalescas grudam-se aos meus ouvidos; sem que eu perceba, depois de já ter desviado a atenção para outra circunstância, o visgo rítmico dessas músicas animadas, estúpidas como são, atuam nos meus lábios, e as canto para mim mesmo, sentindo depois vergonha íntima, numa espécie de mixórdia que deve ser silenciada. Vou ao computador, curvo a coluna para os lados da cadeira plástica, e olho o que vi há muito pouco tempo, fazendo caretas que ninguém as conhece, esmorecido pelo tédio, pelo calor, pela falta de vida da cidade onde vegeto dias previsíveis. Armo, então, ao quintal a preguiçosa velha; à sua frente, finco um banco onde possa despejar as minhas patas; comigo me acompanham fumo, o cachimbo e um livro, que decerto lerei como se não o lesse, enquanto sorvo e libero, pela boca ressecada, uma fumaça prazerosa. Anoitece, os mosquitos não me perdoam a carne, e a comem, penicam, deixando-a rubra e repleta de abscessos. Desarmo, destituído de energia, o circo montado para o espetáculo do conhecimento - cadeiras e utopias, cada uma no seu lugar. Um inverno soberano, de repente e absurdo, me arrefece à alma e, ofegante, ponho na xícara talvez o décimo café do dia. Janto como um javali guloso; logo após estiro o meu corpo gordo sobre a cama, com o ventilador ligado ao pé da minha cabeça, e olho as telhas inexpressivas perante à escuridão que preenche meu quatro. Um alívio de estar perdido dá-me a mão repugnante; adormeço pensando em futuro, trabalho... Cruel, muito cruel, quem me pôs dentro das veias esse sopro orgânico. Sonho a felicidade como uma realidade inadmissível.
Darcy Riberido e a educação de nível superior no Brasil
As diretrizes da universidade constituem um corpo que, em sua carne, encontra-se enriquecido de princípios e finalidades cuja existência atesta a importância e a atenção que devemos atribuir a ela. Os problemas que a circundam, sejam eles de ordem política ou não, são também seus e devem ser encarados com a seriedade suficiente para dirimi-los, de modo que o ensino superior dê a si mesmo uma razão de existir e fuja à vacuidade dos propósitos que os “CÃES de guarda do pensamento burguês” têm imposto como aspirações fundamentais dele. Desse modo, cabe ao acadêmico encarnar o espírito irrequieto que direciona os passos de uma ciência ocupada com as questões mais caras ao seu tempo, tornando-se imune às meias-verdades vendidas descaradamente por aí. Para tanto, inobstante as possíveis dificuldades, faz-se necessário, naquele, uma inclinação sincera à busca ilimitada do conhecimento e à indagação permanente, a fim de que, em gozo da plena liberdade, possa contribuir com o fomento de uma universidade cujo único horizonte é a utopia – isto é, o avanço e a transformação social através da produção do saber e da descoberta de novos conhecimentos.
Darcy Ribeiro, eminente antropólogo brasileiro, em um texto-apresentação de 1985, Universidade Para quê?, ratifica os pontos anteriormente levantados, engendrando uma reflexão profunda acerca do ensino superior a partir da realidade que vivera enquanto peça-chave na criação da Universidade de Brasília. Esta instituição, então pensada como a vanguarda de uma revolução universitária no Brasil, durante o período em que a ditadura esteve instaurada no país sofreu com o descaso e a indigência de pessoas muito pouco comprometidas com questões caras à emancipação nacional. Se a UNB, quando de sua criação, ostentava como ideais a liberdade de pesquisa e o experimentalismo, se abarcava em seu esteio um corpo docente altamente qualificado e escolhido a dedo, o governo militar, uma vez no poder, fere-a naquilo que tinha de mais ambicioso e inovador: achata o livre-pensamento que enriquece; persegue, tortura, mata e extradita os professores que ali ensinavam. Ainda sob o calor destas circunstâncias, Darcy evoca alguns nomes tão importantes quanto o dele mesmo na mudança de rumos da educação brasileira e que também viram os seus sonhos e aspirações serem espoliados pelos milicos. Como é perspícuo ao interlocutor, as reflexões que sucedem no opúsculo são referenciadas pelo significado que a opressão contra a inteligência ganhou durante o período ditatorial.
Tencionando que o degredo responsável por imergir a UNB em trevas não se repita, o antropólogo coloca algumas metas para a universidade, ressaltando que de nada vale uma instituição de nível superior, onde o contraste e a busca são imperativos, descompromissada com a verdade. A utopia deve perfazer o seu horizonte, reunindo em uma unidade concentrada e vigorosa todo o saber humano, criando-se assim um diálogo sem intermitências entre variadas áreas para que, no espírito do trabalho conjunto motivado pelas mesmas razões, respostas e saídas sejam finalmente vislumbradas, sem o risco de que alguém, por pensar de determinada forma, seja tolhido. O Brasil, entretanto, deve ser o seu problema elementar, o interesse mais expressivo de sua existência – pensá-lo, dito de outro modo, é sua obrigação. E isso implica um esforço generalizado em todos os níveis: tanto estudantes quanto professores devem criar condições para que a universidade se realize, constituindo-se em lugar adequado a um país que, frequentemente, faz exames de consciência e enxerga os pontos em que precisa mudar ou continuar acertando. Não basta, para que tal aspiração se concretize, que doutores e mais doutores sejam formados, proliferando-se sobre a vida intelectual do Brasil como parasitas auleiros, sempre prontos a serem coniventes com o despotismo das gestões arbitrárias e a manutenção do bem-estar das classes dominantes. É imprescindível, sim, gente séria e sequiosa pela construção de um país melhor e mais solidário, que, se possível, sirva de exemplo a outros que enfrentam percalços parecidos. Como muito bem coloca Darcy Ribeiro, ao se valer da importância que os cientistas tiveram para super-nações como EUA e Rússia em época de corrida armamentista, “conhecimento é poder, é uma arma”, e manejá-lo requesta grande responsabilidade. Portanto, se os bacharéis formados não têm consciência do que está sendo posto em questão, se intentam desarmar de qualquer forma os benefícios da crítica vigilante, sabemos que eles são os frutos de uma universidade de mentira, interessada em mostrar à sociedade apenas uma hegemonia quantitativa que, no fundo, não reflete nada a não ser falsas-verdades e um interesse malicioso de que as leis educacionais fomentadas pelas elites sedimentem cada vez mais uma estrutura social defasada e ignorante sobre si mesma.
O que alarma nas reflexões de Darcy Ribeiro é a atualidade que podem reclamar. Se é conveniente caracterizar o período quando elas foram escritas como incôndito, confuso, posto estar ainda muito próximo do término do regime militar, tornando-o um autêntico tempo de ressaca, o hoje, quando não temos a opressão declarada e já amadurecemos as discussões sobre o porquê da universidade, pode ser caracterizado com quais adjetivos? Os elementos que compreendem a espinha-dorsal do texto de Darcy abarcam os déficits do ensino superior atual, como se ele não tivesse vencido a etapa inicial que conduz ao desenvolvimento efetivo, conservando a sua inutilidade e degenerescência. A função social da universidade não se traduz em ações reais, predominando dentro de todas e cada uma o verbalismo inócuo do artigo anacrônico, a malícia perniciosa do pós-doutor desnecessário, a vontade quase generalizada por coisa alguma. Por fim, recrudescendo a pontualidade da pergunta que intitula o texto aqui abordado, incrementamo-la com algumas indagações feitas por Darcy em dado momento de sua dissertação, por as acharmos exatamente atuais: “Que universidade nossa discute as causas do atraso de suas cátedras, como uma questão fundamental? Que universidade toma esses temas como sua causa? Todo o saber acumulado nelas é fiel ao povo que as subsidia para formar e manter as cabeças mais brilhantes?”.
Darcy Ribeiro, eminente antropólogo brasileiro, em um texto-apresentação de 1985, Universidade Para quê?, ratifica os pontos anteriormente levantados, engendrando uma reflexão profunda acerca do ensino superior a partir da realidade que vivera enquanto peça-chave na criação da Universidade de Brasília. Esta instituição, então pensada como a vanguarda de uma revolução universitária no Brasil, durante o período em que a ditadura esteve instaurada no país sofreu com o descaso e a indigência de pessoas muito pouco comprometidas com questões caras à emancipação nacional. Se a UNB, quando de sua criação, ostentava como ideais a liberdade de pesquisa e o experimentalismo, se abarcava em seu esteio um corpo docente altamente qualificado e escolhido a dedo, o governo militar, uma vez no poder, fere-a naquilo que tinha de mais ambicioso e inovador: achata o livre-pensamento que enriquece; persegue, tortura, mata e extradita os professores que ali ensinavam. Ainda sob o calor destas circunstâncias, Darcy evoca alguns nomes tão importantes quanto o dele mesmo na mudança de rumos da educação brasileira e que também viram os seus sonhos e aspirações serem espoliados pelos milicos. Como é perspícuo ao interlocutor, as reflexões que sucedem no opúsculo são referenciadas pelo significado que a opressão contra a inteligência ganhou durante o período ditatorial.
Tencionando que o degredo responsável por imergir a UNB em trevas não se repita, o antropólogo coloca algumas metas para a universidade, ressaltando que de nada vale uma instituição de nível superior, onde o contraste e a busca são imperativos, descompromissada com a verdade. A utopia deve perfazer o seu horizonte, reunindo em uma unidade concentrada e vigorosa todo o saber humano, criando-se assim um diálogo sem intermitências entre variadas áreas para que, no espírito do trabalho conjunto motivado pelas mesmas razões, respostas e saídas sejam finalmente vislumbradas, sem o risco de que alguém, por pensar de determinada forma, seja tolhido. O Brasil, entretanto, deve ser o seu problema elementar, o interesse mais expressivo de sua existência – pensá-lo, dito de outro modo, é sua obrigação. E isso implica um esforço generalizado em todos os níveis: tanto estudantes quanto professores devem criar condições para que a universidade se realize, constituindo-se em lugar adequado a um país que, frequentemente, faz exames de consciência e enxerga os pontos em que precisa mudar ou continuar acertando. Não basta, para que tal aspiração se concretize, que doutores e mais doutores sejam formados, proliferando-se sobre a vida intelectual do Brasil como parasitas auleiros, sempre prontos a serem coniventes com o despotismo das gestões arbitrárias e a manutenção do bem-estar das classes dominantes. É imprescindível, sim, gente séria e sequiosa pela construção de um país melhor e mais solidário, que, se possível, sirva de exemplo a outros que enfrentam percalços parecidos. Como muito bem coloca Darcy Ribeiro, ao se valer da importância que os cientistas tiveram para super-nações como EUA e Rússia em época de corrida armamentista, “conhecimento é poder, é uma arma”, e manejá-lo requesta grande responsabilidade. Portanto, se os bacharéis formados não têm consciência do que está sendo posto em questão, se intentam desarmar de qualquer forma os benefícios da crítica vigilante, sabemos que eles são os frutos de uma universidade de mentira, interessada em mostrar à sociedade apenas uma hegemonia quantitativa que, no fundo, não reflete nada a não ser falsas-verdades e um interesse malicioso de que as leis educacionais fomentadas pelas elites sedimentem cada vez mais uma estrutura social defasada e ignorante sobre si mesma.
O que alarma nas reflexões de Darcy Ribeiro é a atualidade que podem reclamar. Se é conveniente caracterizar o período quando elas foram escritas como incôndito, confuso, posto estar ainda muito próximo do término do regime militar, tornando-o um autêntico tempo de ressaca, o hoje, quando não temos a opressão declarada e já amadurecemos as discussões sobre o porquê da universidade, pode ser caracterizado com quais adjetivos? Os elementos que compreendem a espinha-dorsal do texto de Darcy abarcam os déficits do ensino superior atual, como se ele não tivesse vencido a etapa inicial que conduz ao desenvolvimento efetivo, conservando a sua inutilidade e degenerescência. A função social da universidade não se traduz em ações reais, predominando dentro de todas e cada uma o verbalismo inócuo do artigo anacrônico, a malícia perniciosa do pós-doutor desnecessário, a vontade quase generalizada por coisa alguma. Por fim, recrudescendo a pontualidade da pergunta que intitula o texto aqui abordado, incrementamo-la com algumas indagações feitas por Darcy em dado momento de sua dissertação, por as acharmos exatamente atuais: “Que universidade nossa discute as causas do atraso de suas cátedras, como uma questão fundamental? Que universidade toma esses temas como sua causa? Todo o saber acumulado nelas é fiel ao povo que as subsidia para formar e manter as cabeças mais brilhantes?”.
A escrita filosófica como busca e afirmação da singularidade
O pensamento, ao ser transmitido pelo discurso informal, projeta-se à realidade como uma pretensa verdade em relação ao que é pensado. Seu conteúdo resguarda da alteridade uma identidade pessoal que o faz único ao mesmo tempo em que, na afirmação de sua própria singularidade, reconhece na diversidade identidades também autênticas: emitidos através de agentes distintos, os juízos constituem-se de uma substância existencial cujo princípio é, na medida do possível, idêntico de um para o outro. Em um plano restrito, uma singularidade que se contrapõe em termos parciais à outra pode requestar para si mais validade, não sendo lícito que também o cobre frente à totalidade. Porque a totalidade não é a transmissão discursiva do pensamento projetado à realidade como uma verdade sobre si mesma e nem concede a planos isolados a permissão de transcendê-la: a totalidade é uma projeção contínua e pura dos fatos. Somente em relação a ela, e não a circunstâncias desencadeadas restritivamente, a verdade se desnuda e a justiça é feita. Portanto, ao passo em que o sujeito ambiciona formalizar o seu discurso sem correr o risco de promover perjúrios valorativos, seu referencial de análise tem de se deslocar do restrito ao total – isto é, do informal ao filosófico.
Reconhecida a gravidade inerente ao uso do discurso, haja vista o campo de interesse que demarca a sua autenticidade específica ou o seu compromisso mais geral, queremos acreditar que atividade filosófica não pode, sob hipótese alguma, desencadear-se descompromissadamente, livre do crivo indispensável da totalidade e desvinculada de um diálogo contínuo e crítico com a tradição. Se os primeiros passos na filosofia não são dados com o estimável auxílio do instrumental-teórico adquirido através da leitura de obras que versem sobre os mais variados assuntos, e se a cobrança ininterrupta de quem começa a filosofar em relação a si mesmo não existe, a tarefa reflexiva reduz-se ao pedante compromisso da opinião fundada sobre um plano restritivo e ainda grudada ao senso-comum, não havendo aí uma guinada emancipatória no processo de aprendizagem. Desse modo, as exigências rigorosas da atividade filosófica se mostram aos iniciandos logo quando estes começam a tomar consciência de que a boa articulação da forma escrita tem de estar associada ao fomento de questões problemáticas, representadas sob a face de argumentos fortes, e sempre com vistas à abordagem de novas perspectivas a respeito de questões importantes e urgentes. Nesse ponto, em específico, as especificidades da filosofia afastam-na do exercício lírico-poético cuja articulação, seja através de rimas encadeadas ao longo dos versos ou não, concentrando um sentido mais evidente que a mera pretensão formal ou não, pode já cumprir com a tarefa de promover rupturas. O curso até a argumentação filosófica é mais ardiloso: na medida em que o iniciando enxerga atrás de si um contingente heterogêneo de intelectuais, e percebe nessa circunstância pouco abrasadora o esgotamento de possibilidades para que possa salientar suas próprias reflexões, a razão específica da filosofia torna-se evidente, uma vez que o empecilho à progressão do conhecimento reverte-se em horizonte da superação a ser efetuada: ao interagir com o já pensado, como que num exercício hermenêutico afiançado pela vontade de suscitar questões autênticas, os desvios onde rupturas podem ser promovidas aparecem, emergindo daí um discurso singular que não prescinde da totalidade, mas que, no seu processamento dialógico, sempre a teve presente.
Em resumo, a escrita filosófica não dista em nada do que foi preconizado como regras gerais de ação a quem está se iniciando nas tarefas reflexivas, residindo no devir do conhecimento as etapas fundamentais à busca concreta da verdade. Há muito endossada ao vocabulário filosófico como principal meta do amigo da sabedoria, essa busca constantemente joga quem se aventura pela estrada escura do conhecimento sobre o paredão da ignorância. Comprimido a ele, impotente diante de seu incomensurável tamanho, a angústia de saber que, na verdade, pouco sabe vem à tona como certeza irredutível que, nos seus desdobramentos, atua geralmente de duas formas: frustrando-nos o ânimo para a busca de novas perspectivas e estratégias de atuação ou servindo-nos de mola propulsora na superação dos estorvos surgidos ao longo do caminho cujo marco final é a verdade.
Posto isso, fica claro que a filosofia é por si mesma uma disciplina emancipadora, que alarga as certezas do indivíduo a possibilidades infinitas de redefinição, restringindo-lhe a pretensão de acomodar-se com o que já conhece. No fundo, a atividade do filósofo, sendo reforçada continuamente pela autocrítica, resume-se a uma vontade perpétua de superação da indigência, uma vez que as suas ideias, tão sujeitas ao devir quanto tudo o que elas abraçam, encontram-se sempre a um ou mais passos da totalidade que perfaz o seu tempo. Este, como bem postula Heráclito, por morrer a cada dia a fim de viver sua própria morte, restabelece-se ao centro da investigação filosófica repleto de significados inéditos, confirmando a validade da mais famigerada máxima socrática - “Só sei que nada sei” - como condição incontornável de quem se põe a pensar. O discurso filosófico escrito é, então, a locução final dessa dialética permanente do des-embrutecimento e, ao surgir para o público assentindo em torno dele os mais variados tipos de crítica, conflui com o corpo morto das opiniões estáveis, transparecendo, ainda que limitadamente, os traços mais verossímeis ao que seu locutor é e pretendeu ao tê-lo engendrado. E, sempre quando aliado ao rigor de uma formação cultural exemplar, pode proporcionar a descoberta de um modo de expressão particular no qual, além de teorizações aleatórias, o próprio ser se apresenta exigindo o seu espaço em meio a tudo o que já foi produzido e, ao inclinar-se sobre o seu tempo, leva a termo final a empreitada da autoconstrução individual, estabelecendo-se gradualmente como peça autônoma e singular, capaz de produzir discursos voltados à totalidade sem macular a originalidade do seu processo criativo.
Reconhecida a gravidade inerente ao uso do discurso, haja vista o campo de interesse que demarca a sua autenticidade específica ou o seu compromisso mais geral, queremos acreditar que atividade filosófica não pode, sob hipótese alguma, desencadear-se descompromissadamente, livre do crivo indispensável da totalidade e desvinculada de um diálogo contínuo e crítico com a tradição. Se os primeiros passos na filosofia não são dados com o estimável auxílio do instrumental-teórico adquirido através da leitura de obras que versem sobre os mais variados assuntos, e se a cobrança ininterrupta de quem começa a filosofar em relação a si mesmo não existe, a tarefa reflexiva reduz-se ao pedante compromisso da opinião fundada sobre um plano restritivo e ainda grudada ao senso-comum, não havendo aí uma guinada emancipatória no processo de aprendizagem. Desse modo, as exigências rigorosas da atividade filosófica se mostram aos iniciandos logo quando estes começam a tomar consciência de que a boa articulação da forma escrita tem de estar associada ao fomento de questões problemáticas, representadas sob a face de argumentos fortes, e sempre com vistas à abordagem de novas perspectivas a respeito de questões importantes e urgentes. Nesse ponto, em específico, as especificidades da filosofia afastam-na do exercício lírico-poético cuja articulação, seja através de rimas encadeadas ao longo dos versos ou não, concentrando um sentido mais evidente que a mera pretensão formal ou não, pode já cumprir com a tarefa de promover rupturas. O curso até a argumentação filosófica é mais ardiloso: na medida em que o iniciando enxerga atrás de si um contingente heterogêneo de intelectuais, e percebe nessa circunstância pouco abrasadora o esgotamento de possibilidades para que possa salientar suas próprias reflexões, a razão específica da filosofia torna-se evidente, uma vez que o empecilho à progressão do conhecimento reverte-se em horizonte da superação a ser efetuada: ao interagir com o já pensado, como que num exercício hermenêutico afiançado pela vontade de suscitar questões autênticas, os desvios onde rupturas podem ser promovidas aparecem, emergindo daí um discurso singular que não prescinde da totalidade, mas que, no seu processamento dialógico, sempre a teve presente.
Em resumo, a escrita filosófica não dista em nada do que foi preconizado como regras gerais de ação a quem está se iniciando nas tarefas reflexivas, residindo no devir do conhecimento as etapas fundamentais à busca concreta da verdade. Há muito endossada ao vocabulário filosófico como principal meta do amigo da sabedoria, essa busca constantemente joga quem se aventura pela estrada escura do conhecimento sobre o paredão da ignorância. Comprimido a ele, impotente diante de seu incomensurável tamanho, a angústia de saber que, na verdade, pouco sabe vem à tona como certeza irredutível que, nos seus desdobramentos, atua geralmente de duas formas: frustrando-nos o ânimo para a busca de novas perspectivas e estratégias de atuação ou servindo-nos de mola propulsora na superação dos estorvos surgidos ao longo do caminho cujo marco final é a verdade.
Posto isso, fica claro que a filosofia é por si mesma uma disciplina emancipadora, que alarga as certezas do indivíduo a possibilidades infinitas de redefinição, restringindo-lhe a pretensão de acomodar-se com o que já conhece. No fundo, a atividade do filósofo, sendo reforçada continuamente pela autocrítica, resume-se a uma vontade perpétua de superação da indigência, uma vez que as suas ideias, tão sujeitas ao devir quanto tudo o que elas abraçam, encontram-se sempre a um ou mais passos da totalidade que perfaz o seu tempo. Este, como bem postula Heráclito, por morrer a cada dia a fim de viver sua própria morte, restabelece-se ao centro da investigação filosófica repleto de significados inéditos, confirmando a validade da mais famigerada máxima socrática - “Só sei que nada sei” - como condição incontornável de quem se põe a pensar. O discurso filosófico escrito é, então, a locução final dessa dialética permanente do des-embrutecimento e, ao surgir para o público assentindo em torno dele os mais variados tipos de crítica, conflui com o corpo morto das opiniões estáveis, transparecendo, ainda que limitadamente, os traços mais verossímeis ao que seu locutor é e pretendeu ao tê-lo engendrado. E, sempre quando aliado ao rigor de uma formação cultural exemplar, pode proporcionar a descoberta de um modo de expressão particular no qual, além de teorizações aleatórias, o próprio ser se apresenta exigindo o seu espaço em meio a tudo o que já foi produzido e, ao inclinar-se sobre o seu tempo, leva a termo final a empreitada da autoconstrução individual, estabelecendo-se gradualmente como peça autônoma e singular, capaz de produzir discursos voltados à totalidade sem macular a originalidade do seu processo criativo.
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